A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro explodiu como uma bomba política no noticiário nacional, monopolizando manchetes, debates televisivos e redes sociais.

Mas, para uma parcela crescente de analistas, juristas e lideranças políticas, o episódio vai muito além de sua aparência imediata: teria sido a ferramenta ideal para desviar a atenção pública de um escândalo ainda mais profundo e perigoso para o establishment de Brasília, o caso Banco Master.
Até poucas horas antes da prisão de Bolsonaro, o país estava focado na detenção do banqueiro André Vorcaro, peça-chave de um esquema que conecta nomes extremamente influentes do alto escalão político. Nas investigações, surgiam menções ao Ministro-Chefe da Casa Civil, Rui Costa, ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, ao ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, além do poderoso senador Ciro Nogueira. A situação ganhou ainda mais gravidade quando veio à tona que a esposa do ministro Alexandre de Moraes, responsável direto pela decisão contra Bolsonaro, prestou serviços ao banqueiro proprietário do Master.
É neste cenário que muitos enxergam a prisão de Bolsonaro não como um ato jurídico isolado, mas como um fato político oportuno, uma cortina de fumaça capaz de deslocar o foco da opinião pública, preservar figuras poderosas e reequilibrar a narrativa nacional.
A conversão da prisão domiciliar de Bolsonaro em prisão preventiva, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, vem sendo questionada sob o argumento de abuso, ausência de fundamentação idônea e ruptura com normas básicas do processo penal. Três pontos, especialmente, concentraram as críticas.
- Criminalização de Ato Pacífico e Legal
A vigília de apoiadores, realizada de forma pacífica, foi tratada como “risco à ordem pública” e usada para justificar a prisão. Críticos afirmam que a decisão criminaliza o exercício legítimo de direitos constitucionais de reunião e manifestação.
Vale recordar: na vigília em favor de Lula, em 2018, houve pressão organizada para impedir ou atrasar sua prisão por mais de 25 horas. Ainda assim, o episódio não gerou prisões ou conversões cautelares imediatas. O tratamento jurídico, portanto, revela um padrão seletivo.
- Responsabilização Indevida por Atos de Terceiros
A decisão também cita a fuga de investigados como Ramagem e Carla Zambelli para justificar risco de fuga de Bolsonaro. No entanto, o direito penal brasileiro é claro: medidas restritivas devem ser individualizadas. Ou seja, ninguém pode ser privado da liberdade com base nas ações de terceiros. A crítica aqui é direta: Moraes teria construído uma presunção arbitrária, violando o princípio da responsabilidade pessoal.
- Tornozeleira e Prisão Domiciliar Ilegais
A imposição de tornozeleira eletrônica a Bolsonaro, em processo no qual ele nem era réu, foi desde o início contestada. Segundo juristas, o ato viola o devido processo legal, já que medidas cautelares só podem existir dentro de uma relação processual válida.
A posterior conversão dessa prisão domiciliar em preventiva, sem novos fatos concretos, intensifica a acusação de ativismo judicial e de extrapolação de poderes.
É impossível ignorar o contexto: o caso Banco Master vinha ganhando tração e ameaçava abalar estruturas profundas da política nacional. A súbita prisão de Bolsonaro, com enorme impacto midiático, emergiu como o assunto perfeito para soterrar o escândalo debaixo de uma avalanche de manchetes.
O que se vê, portanto, é uma disputa narrativa em que a prisão do principal líder da direita brasileira serviu como instrumento para redirecionar o foco e estabilizar danos que ecoariam dentro do núcleo duro de Brasília.
O debate não é, e não deve ser, sobre gostar ou não de Bolsonaro. O ponto central é outro: quando decisões judiciais parecem servir mais a conveniências políticas do que à estrita legalidade, toda a democracia fica fragilizada.
A cortina de fumaça pode até funcionar por um tempo. Mas fatos, investigações e contradições não desaparecem. E o Brasil, mais cedo ou mais tarde, terá de encarar tanto o escândalo do Banco Master quanto os excessos de um sistema que, ao agir sem limites, corrói as próprias bases do Estado de Direito.